Honestino | Filme com Bruno Gagliasso retoma o interesse pelas docuficções [Crítica sem Spoilers]

Nesta quinta-feira (13), chega aos cinemas brasileiros “Honestino“, filme dirigido por Aurélio Michiles e com Bruno Gagliasso como protagonista único. Com uma concorrência alta de exibição nos cinemas, disputando a atenção contra os filmes “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, “A Odisseia” e “Toy Story 5”, por exemplo, o longa brasileiro revive o gênero das docuficções (documentários mesclados com cenas de ficção) ao explorar a vida e a luta social liderada pelo personagem-título Honestino Guimarães, líder estudantil da UnB (Universidade de Brasília) perseguido pela Ditadura Militar e até hoje desaparecido, com seu corpo nunca encontrado mesmo após décadas.
A Nerds da Galáxia foi convidada pela Mercado Filmes e Pandora Filmes a uma sessão antecipada de “Honestino” e traz agora uma crítica sem spoilers do filme.
Nota: A crítica consiste em uma opinião do escritor e não deve ser considerada absoluta e/ou uma resposta definitiva para a sua dúvida sobre assistir ou não à obra. Sempre priorize ver para estimular o trabalho dos realizadores e desenvolver sua formação de opinião. As informações contidas foram apresentadas em sinopses e trailers.

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História

Honestino Monteiro Guimarães foi um importante militante político contra a repressão da Ditadura Militar (1964-1985), principalmente no primeiro período do regime. Assim que ingressou na Universidade de Brasília, em 1965, logo se destacou por sua postura, carisma e determinação, filiando-se à Ação Popular (AP) e tendo maior contato com a política estudantil. Não demorou muito até ele conseguir respeito e autoridade dentro da AP, visto como um líder para o movimento, assumindo estratégias de posicionamento, ações de protesto e colocando a cara à tapa com discursos autorais em manifestações oficiais.
É importante destacar que a classe estudantil sofreu fortes represálias dos militares, com as universidades formando o principal polo de resistência pública e sendo tratados abertamente como ameaçadores da “Segurança Nacional”. Entre os mecanismos de perseguição e desestabilização usados contra os universitários, foram a criação do Decreto nº 477, que revigorava a proibição de reuniões de cunho político dentro das sedes, e a criação das Assessorias de Segurança e Informação (ASI) dentro de cada instituição educativa, cujas assessorias concediam poder ao Exército de decisões como expulsão arbitrária de estudantes, concessões de bolsa, contratações de professores etc.
Portanto, Honestino foi constantemente visado e preso — mais precisamente, o líder enfrentou cinco prisões, sendo a última, em 1973, a responsável pelo seu desaparecimento, deixando sua mulher e uma filha pequena, do dia para a noite, aos 26 anos, enquanto era presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e vivia em clandestinidade desde 1969.

Por meio de entrevistas com dezenas de colegas de Honestino de Ação Popular e parentes, o filme explora sua origem sociofinanceira em Goiás, a decisão de mudar os rumos na recém-capital federal Brasília e sua expertise e gosto por política e economia, que o moldaram para determinar o grande articulador como foi. Além de trechos dos entrevistados, estiveram presentes no material final as fotos e os documentos pessoais do líder, cenas ficcionais estreladas por Bruno Gagliasso que reimaginam seu sofrimento, fuga e trabalho como militante, e vídeos históricos da Ditadura, como da invasão dos militares à UnB, materiais dos quais o filme mostrou uma apuração rica e bem encaixada.
Neste quesito, Aurélio Michiles não perde tempo em criar um documentário histórico que se preocupa em recapitular detalhes de normas, decretos ou especificidades gerais da Ditadura, focando apenas na vida e legado de Honestino. A ideia levada adiante ganha tanto na qualidade da retratação do protagonista-título — e, por consequência, a sua pertinência, uma vez que sua figura é ainda desconhecida da grande bolha (por um lado, convenientemente de caso pensado) — quanto em suavidade durante a exibição, com sua duração não passando dos 80 minutos, direto e reto, sem inconclusões.
“Mais um filme sobre a Ditadura”

Podem ter certeza de que será comum encontrar esse tipo de queixa, mesmo que involuntária, por uma parcela da comunidade cinéfila sobre o filme, afinal os maiores símbolos atuais do cinema brasileiro — “Ainda Estou Aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025), duas produções que quebraram um jejum de mais de duas décadas fora dos holofotes mundiais — se passam neste mesmo período e conseguiram grandes façanhas cinema afora. Fora outras marcantes obras, como “O Que É Isso, Companheiro?” (1997) e “Pra Frente, Brasil” (1982).
É justificável novamente a reaparição da Ditadura como cenário operandi. Assim como a Guerra do Vietnã e a II Guerra Mundial estiveram sempre envolvidas nas tramas estadunidenses e a Primeira Guerra Mundial para filmes europeus, por exemplo. 40 anos separam nossa atualidade do fim do Regime Militar, o que é pouco em termos históricos e enfatizado no dia a dia ao se tocar que todos da geração Baby Boomer, por exemplo, são testemunhas e sobreviventes. Se somos afetados imediatamente por decisões regidas pelas mentes e assinadas com papel e caneta pelas mãos de poderosos, além de diretamente dependentes, imagina sob uma governança pautada pelo medo por duas longas décadas.

O impacto é severo e profundamente complexo, em todas as esferas. Portanto, há muita história não contada, bastidores escondidos, heróis e vilões desconhecidos, ideias proclamadas… e que bom que temos “Honestino” para mostrar uma outra faceta.
Em conversas exclusivas em que a Nerds da Galáxia esteve presente com Bruno Gagliasso e Aurélio Michiles, os cineastas relembram as consequências que o filme “Honestino” grita: entre 1969 e 1977, centenas de professores demitidos, atrasos de anos de universitários que não queriam se calar diante da ameaça e mais de mil estudantes foram excluídos das universidades, outros desaparecidos totais, que jamais retornaram a suas famílias.
A arte está aí para discutir. Eu faço arte porque eu faço política. Fazer arte no Brasil e no mundo é a mesma coisa que fazer política, com qualquer filme. Acredito que devemos fazer com que esse filme vire ‘pop’. É difícil, porque justamente a ideia deles é essa: apagar. Há quanto tempo eles tentam nos apagar? Mas não vão conseguir; cabe a gente divulgar, estudar, cobrar que as pessoas conheçam. Por exemplo, eu não conhecia o Honestino. Me sinto péssimo.
Por isso que temos que sempre estudar, né? Eu fiz esse filme também pelos meus filhos. Para as novas gerações. É preciso estar atento para não corrermos risco de apagamento. É muito emocionante, principalmente em uma época em que a verdade está deixando de existir. Ver o filme como “Honestino” é muito forte e muito potente. Vamos ver o ser humano, que era filho, que era pai, que tinha mãe e filha, e, acima de tudo, é um ser humano que lutou por liberdade, democracia e justiça, princípios pelos quais lutamos até hoje.
Bruno Gagliasso, em um cine-debate exclusivo de “Honestino” com a imprensa e convidados, em São Paulo

O diretor Aurélio reforçou a ideia do filme de aprofundar sobre a família de Honestino e sua família de luta, criada durante os movimentos estudantis. A presença das duas famílias em momentos de partilhas, apoios, união de ideias e como munição de coragem e altruísmo, segundo Michilis, trata-se da “forma verdadeira desses conceitos, e não a hipócrita“, enraigado devido ao precoce desmantelamento dessas famílias após o assassinato de Honestino.
Era uma história que habitava meu corpo e minha mente, era um dos fantasmas que me assombrava. Evitei mexê-la. Depois dessa onda que começou a ocupar os espaços, em 2014, de tolerância e ódio da extrema-direita, me senti contra a parede. Como eu sou amigo desde sempre da família, companheiro de vários momentos dessa dor, luta e busca, conheci outras pessoas que sofreram. Minha vontade era retribuir isso, essa afetividade. A ideia sempre foi essa: reconstruir a família e devolver a ela a grandiosidade que foi Honestino Guimarães.
A Isaura [viúva de Honestino], quando assistiu pela primeira vez, ela falou: ‘Aurélio, finalmente fui anistiada‘. A Juliana [filha de Honestino] disse para mim: ‘Eu finalmente entendi quem foi o meu pai‘. Todas as pessoas que o conheceram têm a mesma opinião sobre ele, sobre o carisma, sobre o afeto e sua facilidade imensa por sorrir, por exemplo. É uma perda, mas a gente precisava reconstruir.
Aurélio Michilis, em um cine-debate exclusivo de “Honestino” com a imprensa e convidados, em São Paulo
Roteiro e Montagem são personagens de destaque

Com as principais missões de contar a história desse mártir esquecido pelo tempo e explorar seu engajamento contra a censura aplicada pelos militares, “Honestino” consegue trazer um bom equilíbrio entre a contação de fatos e a visão de Honestino e de seu núcleo com a Ação Popular (AP) e as confidências com sua família. Mesmo havendo o balanço, aqui há um maior favorecimento à origem e às relações de Honestino, uma decisão que, embora pareça óbvia escolha, é um acerto de destaque por dinamizá-lo, tornando-o mais atrativo, historicamente mais interessante — ao acrescentar camadas inéditas de uma figura não só desconhecida e nichada como também praticamente inacessível, e mais pessoal e sincera.
E é exatamente o desconhecimento da luta de Honestino por liberdade e educação, em um atual cenário político brasileiro bastante polarizado, segregatório e instável, que eleva o filme a uma pertinência exemplar e honrosa para produções em documentário, direitos esses que cada um possui por direito e que sempre permanecerão no centro das discussões, uma força que nem mesmo as barreiras do tempo podem silenciar.
Em quesito documentários, Aurelio Michilis mostra por que tanto domina o gênero e como ainda tem madeira para queimar, mostrando-se atualizado e comprometido com pautas quentes em voga e por um faro de procura e pesquisa alá de jornalistas experientes, apesar de sua parcialidade mais escrachada que afasta interessados mais interessados em imparcialidade.
Sua montagem lembra bastante “O Cineasta da Selva” (1997), uma docuficção produzida por Michilis e que traz José de Abreu na pele de Silvino Santos, fotógrafo luso-brasileiro pioneiro dos documentários no Brasil; para “Honestino”, a fórmula se repete, tendo praticamente a mesma problemática: a falta de materiais e documentos dos nossos personagens centrais figurando. A boa notícia é que temos a subvertente dos documentários com ficção à tona novamente, com Bruno Gagliasso ilustrando o comprometimento, esperteza e afinco de Honestino na causa.
Atuação de Bruno Gagliasso proporciona imersão, mas não acrescenta no storytelling

A atuação de Bruno aqui é perfeita, mediante o que o filme dedica de espaço para suas cenas. Fato é que Bruno não mentiu quando disse que entregou toda sua verdade como ator neste papel: seu respeito pelo personagem é devidamente sentido e cumpre uma bela homenagem póstuma.
Todas as cenas, de livre imaginação e mais artísticas, que mostram os percalços que Honestino passou, carregam um tom emotivo, com bons recursos e boa liderança de direção de fotografia e iluminação — principalmente nos takes que retratavam Honestino preso —, mas não se sustentam pela curta duração. São esquecíveis, muitas até sem falas; e que, pensando por um lado mais lógico, se tirar ou pôr, daria na mesma a recepção do público. Muitas cenas, inclusive, são praticamente econômicas, sendo usadas mais de uma vez. Ou são praticamente monólogos de discursos escritos por Honestino, lidos virados às câmeras por Bruno.
Entendo a razão do foco maior concentrar-se nos depoimentos das dezenas de entrevistados chamados da Ação Popular e da família do líder estudantil, não só por ser um documentário, mas também pelo orçamento que o longa dispunha e pela imprecisão que as cenas de Gagliasso representavam de fato, mas “Honestino” já prometia isso mesmo desde os seus trailers — e, se tivéssemos mais aparições distribuídas no filme, como mais retratações de seus posicionamentos em manifestações, formas de contato com seus familiares e colegas ou outros backgrounds, com falas mais decisivas, seriam uma perfeita quebra para fisgar mais a atenção e o interesse do público não tão adepto aos documentários.
Conclusão: Honestino é bom?

Aurelio Michilis entrega um filme certo na hora certa, em um contexto político ainda perturbado e inflamado, especialmente neste ano de eleições, e relevantemente inédito ao mostrar a missão e a vida de Honestino Guimarães, um grande símbolo personificado da reivindicação de estudantes universitários, demasiadamente de instituições públicas, por liberdade: de manifesto, de estudo, de pluralidade e de respeito. “Honestino” é um filme sobre legados que a Ditadura Militar deixou: enfraquecimento e deturpação de polos de ensino públicos, famílias desmanteladas de alvos do governo e o contraste entre medo e apagamento, que permitiu normalizar a impunidade mesmo depois de tudo.
E é aí que “Honestino” justifica sua pertinência: ao mostrar uma visão parecida com o que o filme “Ainda Estou Aqui” retratou sobre o grito alto do silêncio, o longa aborda uma camada diferente, engrandecendo a mobilização e a coragem de Honestino e “Honestinos” que não se calaram e deram seu corpo à tapa à frente de pessoas tão poderosas. Há quem diga que há uma fadiga de filmes sobre a Ditadura Militar, mas, enquanto a arte ainda continuar sendo arte, ela sempre deve continuar provocando, registrando, expressando e conectando.
Com toda a potência da atuação de Bruno Gagliasso, mesmo que com presença tímida justificável, “Honestino” promete impactar positivamente todos que assistirem, sobretudo os mais curiosos. Aurélio volta às origens com uma docuficção inteligentemente organizada e bem dirigida, que foca no que é apenas essencial historicamente, ação bem pensada levando em conta o público a que se destina — os jovens —, com duração acessível, linguagem simples e com seu conteúdo bem dividido.
Assista ao trailer
Quando estreia Honestino
“Honestino” chega exclusivamente aos cinemas do Brasil inteiro no dia 13 de agosto, com sessões já disponíveis à venda em salas, como a Reserva Cultura, REAG Belas Artes, Espaço Petrobrás de Cinema, Cine Bijou e Cine LT3. Fique por dentro das redes sociais do filme para não perder próximos eventos e novidades.
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