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Antártida é um grande feito do cinema brasileiro… e só isso [Crítica Sem Spoilers]

Antártida é um grande feito do cinema brasileiro... e só isso [Crítica Sem Spoilers]
Antártida é um grande feito do cinema brasileiro... e só isso [Crítica Sem Spoilers]

Desde o dia 17 de setembro, “Antártida“, novo filme brasileiro da Globo Filmes, está disponível nos cinemas. Com um elenco de renome, composto por Marina Ruy Barbosa, Antonio Calloni, Lázaro Ramos, Andrea Beltrão e Leandra Leal, entre outros atores de destaque na indústria e nas telenovelas, o filme é um thriller no estilo cozy mystery que tenta se inspirar nas obras de Agatha Christie. A única coisa que a história tem de parecido com a autora best-seller, porém, é a temática, e o enredo sofre diante de tantas ideias malformuladas.

Com direção de Bruno Safadi (Meu Nome é Dindi) e roteiro de Claudia Jouvin (Onde Nascem os Fortes, Dias Perfeitos), o longa tem um pouco mais de 1h30 de duração e foi o filme de abertura do 54º Festival de Gramado.

A Nerds da Galáxia foi convidada pela Diamond e pela Globo Filmes para a cabine de imprensa de “Antártida” e te explica melhor os pontos positivos e negativos da produção.

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Nota: a crítica consiste na opinião do escritor e não deve ser considerada absoluta ou uma resposta definitiva para a decisão de assistir ou não à obra. Sempre que possível, priorize assistir ao filme para prestigiar o trabalho dos realizadores e formar a sua própria opinião. Alguns spoilers listados já foram apresentados em sinopses, trailers e materiais de divulgação.

Crítica de “Antártida”

História interessante, mas não impactante

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“Antártida” se passa na Estação Comandante Diniz, uma base brasileira instalada no continente, onde militares e cientistas residem e trabalham, monitorando a situação da região gélida e desenvolvendo pesquisas científicas. É justamente para uma nova vertente de pesquisa acadêmica que a cientista e fotógrafa Inês (Marina Ruy Barbosa) chega à estação, já composta pelo Comandante Barros (Antonio Calloni), pela subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão), pelo tenente da Marinha Viriato (Adélio Lima), pela médica Marina (Leandra Leal), pelos militares Josué (João Vitor Silva), Santiago (Henrique Barreira), Dimas (Gero Camilo) e Rose (Mariana Sena) e pelos cientistas Gaspar (Renan Monteiro) e Freitas (Marcos de Andrade).

O Capitão Vicente (Lázaro Ramos) também chega a bordo para resolver algumas pendências com sua ex-parceira Marina, mas acaba integrando o time após se demorar demais e perder a carona de volta. Na primeira noite de reunião da equipe — durante uma festa com bebida à vontade e música alta —, um crime brutal acontece justamente com a novata Inês: em estado inconsciente, a cientista é violentada sexualmente fora das instalações da estação e deixada ali, fragilizada. Elisabeth percebe os gritos de Inês, mas já é tarde demais, e o agressor escapa.

Sem saber qual homem cometeu o crime — que pode ser até mesmo o Capitão Vicente ou o próprio Comandante Barros —, a subcomandante se vê em uma enrascada e não enxerga outra escolha: com o apoio de Marina, Inês e Rose, Elisabeth conduz uma investigação amadora para descobrir quem violentou Inês.

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Diante de uma pauta infelizmente atemporal e recorrente no Brasil, país em que são registrados quase 200 estupros por dia, de acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, “Antártida” dignifica a causa ao trazer o peso que um crime como esse carrega — pela perversidade, pela escrotidão e pelo interesse público que desperta aos olhos de terceiros —, tal qual o peso avassalador que acomete a vítima, em que vemos praticamente todos os primeiros estágios do luto traumático. O filme mostra ainda a sororidade e a importância dessa união para encontrar forças e fazer o que é certo.

Porém, a história levantada fica sem profundidade narrativa ao não explorar os potenciais culpados, tanto nos “motivos” que possam tê-los levado a essa ação — que, embora mostrados, têm pouco tempo de tela — quanto na reação e na versão dos acontecimentos para os personagens culpados. Predominam cenas habituais do trabalho realizado na base, do núcleo familiar entre Vicente e Marina e da amargura de Inês e Elisabeth sobre o episódio.

Por ser um thriller, o suspense deveria ser o chamariz, mas não causou a imersão esperada, mesmo com o filme assumindo de fato as rédeas da investigação mais para o final do longa — o que, curiosamente, o torna mais novelesco, com direito a explosões em referência a um caso real ocorrido na base militar Comandante Ferraz, na Antártida, em 2013. Embora a ideia de construir o suspense por meio do medo e da desconfiança seja bem interessante, ela não foi suficiente aqui, por faltarem elementos que a enriquecessem.

Talvez se possa justificar que essa rotina normalizada, mesmo diante do abuso sexual praticado por um dos membros da equipe, seja um retrato do pouco palanque que o crime gera no país, assim como da voz da mulher na sociedade, o que tornaria a decisão mais louvável. No entanto, ainda assim, a decisão seria fraca diante do potencial que o próprio cinema, enquanto arte, tem de impactar. Faz falta a “Antártida” um meio-termo que puxe a nossa participação: como suspense investigativo, seu chamariz deveria ser convidativo e instigar o espectador a desvendar o caso em conjunto, o que não aconteceu, embora seja um bom filme para assistir do começo ao fim.

Personagens não ganham tempo para conexão

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A escolha do elenco precisa ser estratégica, não só porque ocupa grande parte do investimento do filme, mas também porque auxilia no marketing e faz diferença para a história.

Em “Antártida“, o time dispensa apresentações: são profissionais com forte carreira na sétima arte nacional e excelentes no que construíram. Poucas atrizes têm escopo para interpretar uma personagem motriz como a que Marina Ruy Barbosa entrega em Inês; poucos atores são tão magnéticos quanto Leandra Leal e Lázaro Ramos, que, de tão bons, conseguem puxar outros atores a um excelente nível de performance; a atuação realista e “feliz nos simples” de Andrea Beltrão não tem para ninguém, com a presença e o poder de convencimento necessários para dar credibilidade ao filme.

Porém, mesmo que os atores sejam um show à parte, seus personagens não conseguiram atingir um grau de conexão com o espectador, isto é, não nos deixaram conhecer mais sobre o que pensam e o que são. E, nesse ponto, não os culpo. Inicialmente, “Antártida” foi apresentada como uma ideia para uma série de TV em meados de 2017, o que explica muito o sentimento que ficou em mim após o filme: confusão. É um universo visivelmente rico e mais complexo do que o que vimos no corte final, mas que, pela falta de tempo e de decisões que julgo mais condizentes com um thriller, ficou somente no papel. “Antártida” é um amontoado de ideias pensadas, mas não aplicadas.

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E é claro que esse efeito reverbera nas atuações. De forma isolada, os trabalhos dos atores foram bons e convincentes, escolhas certas para o tamanho da responsabilidade e da audácia que esse filme carrega; porém, superficiais, quase contidos diante do que queriam expressar naquele momento, o que atribuo não só ao roteiro, que não sabia aonde queria chegar, mas também à falta de briefing ou mesmo de controle dos atores por parte da direção.

Fora que o tempo de tela dos quase dez personagens regulares do filme não são os mesmos. A personagem da Mariana Sena, por exemplo, é bem mal aprofundada e, até mesmo sendo uma das poucas mulheres da estação, podendo servir de apoio à personagem de Marina Ruy Barbosa, vemos poucas cenas de suporte entre ambas. Atores mais coadjuvantes, como Renan Monteiro, Giro Camilo e Marcos de Andrade, tiveram somente adições relevantes no meio para o final, em um ponto de maior maturidade do filme, justamente quando o próprio dependia de alguma movimentação mais relevante para o plot.

Resumindo, o ponto de maior atratividade de um thriller foi rebaixado em “Antártida”: o desenvolvimento dos personagens. Sem este ponto, torna-se bem difícil prender e surpreender o público com o mistério. O que fica é claramente um esquecimento coletivo da produção de que o filme é um thriller e não um drama, focando mais no núcleo feminino — e ainda com ressalvas.

Antártida é praticamente um meio, não um ambiente

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Confesso que, quando procurei saber a respeito, o filme despertou minha atenção por ser brasileiro e se passar no continente mais gelado e inóspito do planeta, curiosamente autônomo e que detém bastante influência geopolítica por meio dos países que possuem alguma base por lá.

Com base nesse potencial rico em assuntos e temas, e analisando o filme após tê-lo visto, sinto decepcionar os cinéfilos que esperam mais da própria Antártida em ação: ela é praticamente escanteada durante todo o filme, atuando como um meio que fomenta o “pior lado” do humano, diante do abismo de diferenças entre a região e o Brasil, principalmente quanto ao frio e à escassez de recursos.

Em materiais de divulgação recentes, Marina Ruy Barbosa, Andrea Beltrão e Leandra Leal comentaram justamente o fato de os eventos do filme se passarem na Antártida serem um atrativo interessante do longa-metragem, além de o crime de abuso sexual acontecer nessa base militar brasileira passar uma mensagem de eterna vigilância na proteção da mulher, já que “criminoso não tem rosto” e “pode rolar em qualquer lugar” — e assino embaixo, por esse lado.

Por outro lado, o filme poderia aproveitar melhor o ambiente para aqueles que, assim como eu, se interessaram pela proposta do lugar. Cheguei a me perguntar se esse seria um ponto passível de menção nesta crítica, porque, naturalmente, dar mais destaque à própria Antártida poderia levar o filme a um lado mais de ação e aventura, fazendo-o perder a sua “essência”. Contudo, tendo em vista que, no corte final, “Antártida” investe nessas cenas de adrenalina, justifico aqui meu ponto de que poderiam também ser mais distribuídos os eventos de escassez de alimentos, as dificuldades de se manter na estação e na região e as demais situações.

Produção de “Antártida” é um marco ao cinema brasileiro

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O maior ponto de destaque do filme é o seu desempenho técnico. “Antártida” é um filme lindo, com ótima fotografia e cenários que colocaram o cinema brasileiro em outro patamar. O filme, produzido pela Globo Filmes, é o primeiro brasileiro a usar a tecnologia de produção virtual com painéis de LED, chamada ICVFX, com o Unreal Engine, até então usada apenas em Hollywood — e criada em 2019, com o surgimento do modelo na série da Disney “O Mandaloriano”. Com uma área de 1.500 m² e painéis de mais de 300 m², a estrutura de cenário é digna de sua alcunha: o maior estúdio virtual da América Latina.

O ICVFX é uma técnica de produção virtual que gera efeitos visuais em tempo real durante gravações ao vivo, usando painéis de LED, motores de renderização e rastreamento de câmeras, uma alternativa mais tecnológica aos tradicionais fundos verdes ou azuis do chroma key. O avanço possibilita vários benefícios e soluções que ajudam principalmente a pós-produção do filme, como iluminação fidedigna, efeitos visuais já captados e reproduzidos na própria câmera e, com o Unreal Engine e sistemas nDisplay, uma imagem no painel que reage à posição exata da câmera, garantindo profundidade e realismo óptico convincentes, além de maior imersão para os atores.

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Mesmo que a tecnologia tenha chegado com alguns anos de “atraso” — algo que também é particularmente comum, afinal o cinema brasileiro ainda é emergente e fortemente dependente do Estado —, trata-se de uma evolução que esperamos que não tenha volta e que tanto seja usada pela Globo, em mais produções, quanto instigue a competitividade em outras produtoras brasileiras.

A atenção dada pela equipe de produção foi tamanha que, auxiliando a tecnologia ICVFX, a neve usada no filme foi criada artificialmente, com base em pesquisas que envolveram cerca de um ano de planejamento e testes, tudo para que a neve de mentira ficasse com textura semelhante à que encontramos em abundância no continente. Para simular o frio extremo dentro do estúdio, foi importado maquinário de nevasca. Ou seja, todo o planejamento de pré-produção, que demandou tanto esforço, se refletiu na tela, com cenários lindos e realistas e boas interações entre os personagens e o ambiente.

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Conclusão: “Antártida” é bom?

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“Antártida” é uma boa alternativa de filme descontraído, mas que ainda mantém uma proposta mais complexa e instigante do que um simples filme para “passar o tempo” ou de “entretenimento fácil”. Apesar de a produção ser feita para assistir em tela grande, graças ao trabalho impecável — e, espero, revolucionário e pioneiro — de pré-produção que aliou o talento cenográfico brasileiro às tecnologias mais recentes da indústria, seu enredo é virtuoso mais pelas problemáticas que critica e pelo elenco fenomenal do que pela trama, cuja montagem e cujo roteiro ficaram confusos e perdidos, mesmo que você enxergue um potencial enorme na história e nos núcleos complementares.

Onde ver “Antártida”?

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O filme “Antártida” já está disponível nos cinemas de todo o Brasil e deve ficar em cartaz até, mais ou menos, o começo de novembro. Por ser uma produção da Globo Filmes, o filme deve chegar logo em seguida ao catálogo da Globoplay, ainda sem data confirmada pela Globo.

Assista ao trailer

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